Uma mulher no comando do jogo: conheça Andressa Hartmann, a primeira árbitra a apitar uma partida de Gauchão

Uma mulher no comando do jogo: conheça Andressa Hartmann, a primeira árbitra a apitar uma partida de Gauchão

Fotos: Arquivo pessoal

O gosto de Andressa Hartmann, 33 anos, pelo futebol começou à beira do campo. Filha de jogador amador, ela acompanhava o pai nas partidas da comunidade em São Paulo das Missões, no noroeste do Estado, e logo passou a dividir o gramado com os meninos do bairro. Anos depois, aquela menina desempenharia outra função no campo: a de árbitra central. E não parou por aí: em 2026, Andressa fez história ao ser a primeira mulher a apitar uma partida de Campeonato Gaúcho Masculino.

Ao Diário, Andressa contou sobre o caminho até chegar ao centro dos gramados, os desafios da arbitragem e por que pode ser difícil ocupar espaços que, por décadas, foram habitados por homens.


Infância

Antes de vestir o uniforme de árbitra, Andressa viveu o futebol jogado. A infância foi marcada por “peleias” em campinhos de terra improvisados e pela companhia constante do pai, que atuava em jogos amadores da cidade. Nessa época, o espaço do jogo era divido com os meninos. Andressa lembra que eram poucas meninas envolvidas com esporte.

– Eu sempre fui muito ativa nas aulas de educação física e jogava futebol com os meninos do bairro. A gente tinha aqueles campinhos nas praças, que hoje quase não existem mais. Também acompanhava meu pai nos jogos de futebol amador e foi ali que começou meu gosto pelo esporte. O futebol sempre esteve muito presente na minha infância – conta.

Na adolescência, ela chegou a disputar campeonatos locais, o que fortaleceu ainda mais o vínculo com o futebol. O objetivo era muito claro:

– Eu sempre tive na minha cabeça que queria ser jogadora profissional.

O sonho chegou a se aproximar da realidade. Em 2009, Andressa participou de um período de convocações da Seleção Brasileira Sub-17. Dois anos depois, jogou futsal profissional em Jaraguá do Sul, cidade que tinha uma das equipes mais tradicionais da modalidade. Mas outra oportunidade também batia à porta. A aprovação no curso de Educação Física da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) exigiu uma decisão difícil: seguir tentando a carreira como atleta ou retomar os estudos. Andressa optou pela universidade.

Foi assim que, em 2012, começou a construir uma relação duradoura com Santa Maria, cidade onde viveria por mais de uma década. No coração do Rio Grande, além da formação acadêmica, também teve oportunidades que a levariam a desempenhar uma nova função no futebol: a do apito.

Formada em Educação Física pela UFSM, Andressa viveu 12 anos em Santa Maria


Quando a chuteira deu lugar ao apito

O caminho na arbitragem começou a ser desenhado ainda durante a graduação. Em Santa Maria, Andressa teve contato com a Associação de Árbitros da cidade. Foi na entidade, que atuava em competições amadoras da região, que ela despertou a curiosidade e a paixão pela arbitragem. Era uma forma também, conta, de manter viva a relação com o esporte. Logo, não demorou muito para que a chuteira desse lugar ao apito.

A arbitragem surgiu muito a partir do contato com colegas e árbitros aqui de Santa Maria. Eu ainda jogava alguns campeonatos quando comecei a conversar com o pessoal da associação. Também tive incentivo de colegas da graduação que já trabalhavam na arbitragem e isso acabou abrindo esse caminho para mim – diz.

A estreia veio em 2019, primeiro como quarta árbitra e depois no comando de uma partida como árbitra central, em um jogo de categorias de base realizado em Santa Maria.

– Quando estreei como árbitra central foi um misto de sensações. Era algo novo e uma responsabilidade grande, porque o árbitro está ali comandando o jogo. Mas fui muito bem acolhida pelos colegas e lembro daquele dia com muito carinho, porque marcou o início de uma nova etapa da minha vida – afirma.


O pioneirismo como árbitra no Gauchão deste ano

Registro do jogo entre São José e Monsoon pelo Campeonato Gaúcho

O gesto durou poucos segundos: apito à boca, olhar atento ao gramado e autorização para a bola rolar. Mas, naquele instante, Andressa Hartmann entrava para a história do Campeonato Gaúcho ao se tornar a primeira mulher a apitar uma partida masculina da competição. O duelo ocorreu em 22 de janeiro, quando comandou o confronto entre Esporte Clube São José e Monsoon FC, no Estádio Francisco Novelletto, em Porto Alegre.

– Eu sabia que o Rio Grande do Sul ainda não tinha tido uma árbitra central no Gauchão e vinha trabalhando para que essa oportunidade pudesse acontecer. Fiquei muito feliz quando recebi a escala e também pela confiança da comissão de arbitragem no meu trabalho. Foi um momento muito especial – lembra, ao recordar a noite histórica.

Andressa lembra que além do pioneirismo, a partida também marcou outro fato inédito: o trio de arbitragem era formado apenas por mulheres:

Não foi só eu que estava ali. Era um trio feminino trabalhando no Gauchão e isso também é muito significativo. Recebi muitas mensagens de apoio e carinho depois daquele jogo e espero que a partir dali outras oportunidades continuem surgindo.

No mesmo campeonato, Andressa também comandou o jogo de ida da decisão da Taça Farroupilha entre São Luiz e Esporte Clube Novo Hamburgo, no Estádio 19 de Outubro.

Antes disso, em dezembro de 2025, esteve à frente da final do Gauchão Série B entre Guarani de Venâncio Aires e Apafut, no Estádio Edmundo Feix.


A rotina entre escola e arbitragem

Apesar da visibilidade dentro dos estádios, a arbitragem não é a única profissão de Andressa. Formada em Educação Física, ela também atua como professora na rede municipal de ensino de Porto Alegre.

– Hoje eu concilio a arbitragem com o trabalho como professora de educação física. Sou concursada do município de Porto Alegre. Como a arbitragem não tem vínculo empregatício, a gente recebe apenas quando trabalha em um jogo. Então acabo organizando minha rotina para conseguir conciliar as duas atividades – conta.

A rotina envolve a rotina na escola e preparação para os jogos. Engana-se quem pensa que são apenas treinos físicos. Há, também, estudo sobre as equipes e jogadores antes de cada partida. Conforme Andressa, tudo faz parte de um plano de trabalho para o jogo:

– Normalmente eu assisto jogos das equipes que vou apitar, analiso o comportamento dos jogadores e também as súmulas das partidas anteriores. Converso com colegas que trabalharam com aquelas equipes para trocar informações.


Desafios e preconceitos do futebol

No futebol, a pressão sobre a arbitragem costuma vir de todos os lados. Das arquibancadas, dos bancos de reservas e das redes sociais. Para Andressa, lidar com críticas faz parte da profissão. Ainda assim, algumas situações a afetam mais, especialmente quando os comentários negativos partem de outras mulheres.

– A gente fala muito do machismo que existe no futebol, e ele realmente existe. Mas, às vezes, os comentários que mais me incomodam vêm de outras mulheres. Eu acho que a gente precisa se apoiar mais. Se uma mulher não apoia a outra que está trabalhando ali dentro, a nossa luta acaba ficando um pouco mais difícil – diz.

Questionada sobre os preconceitos, ela não hesita ao afirmar que teve de encará-los de frente. Não poderia ser diferente em um espaço historicamente dominado por homens, afirma. Apesar disso, acredita que, com o aumento da presença feminina em diferentes funções, seja na arbitragem, na imprensa ou nos clubes, essa realidade tende a mudar aos poucos.

Andressa destaque a importância de outras mulheres na arbitragem gaúcha

– Seria mentira dizer que a gente nunca encontrou preconceito. Isso ainda existe e aparece de várias formas. Mas, ao mesmo tempo, é muito gratificante perceber que, mesmo com essas barreiras, conseguimos ocupar esse espaço e mostrar que pode desempenhar o trabalho com competência – afirma.


Futuro

Depois de chegar ao marco histórico no futebol gaúcho, Andressa quer seguir ampliando sua trajetória na arbitragem para, quem sabe, contribuir para que outras mulheres também ocupem esse espaço.

Quando eu entrei na arbitragem, em 2018, não havia nenhuma árbitra central no quadro da federação. Hoje já somos mais. Isso mostra que o cenário está mudando e que outras meninas podem enxergar na arbitragem uma possibilidade de carreira dentro do futebol – relata.

Ela destaca que ocupar o campo como árbitra vai além da realização pessoal. Para ela, é também uma forma de incentivar novas gerações a acreditarem que o futebol pode ser um espaço profissional para mulheres:

– Se uma menina gosta de futebol, ela precisa saber que existem muitas formas de estar nesse meio: como atleta, técnica, árbitra, jornalista. Quanto mais mulheres a gente tiver nesses espaços, mais natural isso vai se tornar.

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